sábado, 31 de março de 2012

Leva

Abra essa tua mala sem cor, de mau gosto, tire o cadeado de todos os bolsos e encha, preencha com tudo o que me atormenta, o que você não quer, o que passou a ser inútil. Carrega contigo esse meu amor que era bonito e ficou empedrado, coloca na bagagem, esconde no bolso, vá embora com ele. Estoure todos os zíperes, perca-o pelo caminho, deixe correr com a enxurrada, mas o faça derreter com a chuva que não molha o teu rosto, mas encharca o meu.
Fecha essa mala, suma com tudo isso, mas volta. Volta e me consola, cuida desse coração quebrado, faz mais um remendo. Não me julga com esses seus olhos que não me olham, me dá teu ombro para o meu conforto, abre teu guarda-chuva e faça do silêncio a melodia certa para preencher a falta que você me faz.
Faz de mim o que eu era antes, antes de descobrir o homem em você. Me toma no seus braços e me peça para voltar.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Pedaço

Acordei amputada. Era como se tivessem arrancado de mim um membro, algo que era essencial para a minha vida. Agora eu manco, está faltando uma parte. Daqui para frente me acostumo com as muletas, delimito meus passos, desvio dos buracos. Desvio de você.
Que tudo fique mais fácil daqui para frente, já não carrego aquele pedaço pesado de história, empoeirado e sem vida. Devo estar mais leve, treinando a minha força. Um pouco mais solitária, mas, independente de tudo, eu.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sua

E no fim você me apertava dentro de um abraço sem culpas e me beijava a testa. Beijo de respeito, sincero, bonito. Já era esperado que eu despertasse.
Cansei desse sentimento de ladeiras e morros, fingindo sumir de vista e reaparecendo avassalador lá na ponta da rua, me atropelando sem pressa. Queria ter coragem para me enlaçar em seus braços e pedir para me deixar ser.
Ser sua.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

DNA

Sou virginiana e sofrer está tatuado no meu DNA.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Sentido

Esse meu romantismo bobo já me fez te enxergar de diversas formas, com novos rostos e particularidades mínimas, mas com o mesmo jeito, essa maneira ímpar de ser você. Parece redundância, entretanto, é preciso expor em texto o que não é possível articular pelos lábios.
A bebida já não me satisfaz, apenas confunde. Sinto falta do cigarro, da tragada profunda, do sopro prolongado expulsando a tensão da alma e, por fim, da fumaça pincelando a distância segura que tinha da sua presença indiscutivelmente perceptível.
Mentiria ao dizer que essa história me incomoda. Senti falta do cálculo de cada frase, da métrica de qualquer palavra, a tentativa de parecer comum ao ponto de ser eu, ser quem você conhece. Projeto cada passo, me assusto com o toque espontâneo, fujo dos teus olhos.
Tola, por inteiro. Tola por prolongar decisões, em jurar em falso que nunca te quis e , por hoje, não conseguir ouvir de tua boca sobre seus outros amores.
Tola ao ponto de não te querer, de me forçar a não te ter, de acreditar que escrever pôde um dia me esclarecer.
Chega por hoje, percebi que essa história só pode um dia ser bonita quando ela terminar. Pois bem, é o fim.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

5

Preciso parar de sonhar com você, preciso agora. Até onde essa falta do fim pode me perseguir se já impregnou meu sono.
Cansei de te escrever cartas, muitas delas incompletas, tantas outras com apenas o seu nome. Talvez isso seja apenas o reflexo da história sem rumo que nos metemos, da história que, agora, tenho de carregar sozinha.
Poucas são as pessoas com quem partilho meus pedaços e são essas poucas que não conseguem acalmar essa palpitação chata, desritimada. Esse é mais um dos meus contos da angústia escondida.
Acho que perdi para o desconforto, o cansaço que me consumiu na tentatuva de digerir o que não aconteceu, por incrível que pareça. O que me aflige é pensar que você foi o certo na hora errada ou que fui seu equívoco, uma descoberta do menino que cresceu.
Sou esse poço abarrotado de questões que não querem ser feitas. Para mim, espectadora fiel da minha vida, essa é só mais uma das crises que duram 5 minutos, tempo suficiente para despejar em algumas linhas um pouco do que já passou em frente aos meus olhos, enquanto enxergava apenas você.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Diga

Quando fugimos demais do mundo caímos sem rumo em lugares obscuros. Se deixamos para amanhã os problemas de hoje, acordamos sem a paz do anteontem.
A bagunça dessa vida torta me mostrou que, seguir em direção na linha das certezas depende apenas de mim, só. Me deparei com pedaços espahados por todo o caminho, tentei recolher todos, mas é pouco o espaço entre meus braços. Sou a incerteza que você deixou ao lado, a angústia que você viu passar e o amanhã que não chegou.
Sou tudo aquilo que não vingou, que prometeu, que não cumpriu. Todas as palavras ditas sem razão, os devaneios perdidos e sua solidão escondida. Fui seu único medo um dia, seu único objetivo, seu principal desejo.
O que corrói é a dúvida, a dívida o telefone mudo. O que fica? A pergunta.
Amaldiçoe meus novos hábitos, minha falta de jeito, os novos detalhes que você não reconhece. Diga pelos cantos que eu mudei, mas não esqueça de dizer o porque.

A saudade da época que eu não precisava de nada além de um teclado para falar por mim.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Quando


Quando tomei a decisão de ir embora, jurei baixinho que ia escrever o suposto texto de despedida apenas quando ela se concretizasse de fato. Menti.
Guardo há dias essa angústia desmedida da partida, essa coisa que é fria e dá calafrios.
Pouca gente sabe, mas eu estou feliz. Preciso de estabilidade, de ter algo para reclamar - mesmo que seja o fato dos meus pais serem atenciosos demais e me amarem incondicionalmente.
Quando tudo isso se tornou concreto e coloquei a primeira parte desses quatros anos dentro de uma caixa, não pude deixar escapar, por um minuto que fosse, minha vontade de ficar com os olhos borrados e inchados. Me contive, porque sofrer por antecedência é um defeito meu, que não pode ser passado adiante.
Quando tive uma das crises por conta dessa mudança, decidi que deveria escrever uma carta para cada pessoa que me deixou estar ao lado, me serviu como muleta e doou um pouco de tudo o que eu precisava durante esses anos. Essa ideia foi esquecida há tempos. Algumas experiência me fizeram céticas em relação ao "para sempre". Aceitei as turras que tudo que começa um dia acaba, pode ser na hora da partida ou em um simples desencontro. Assumo aqui que acabou, talvez um dia eu volte a pertencer a esse lugar, mas por enquanto estou acenando e dizendo adeus, nos vemos por aí.
Soa pessimista, para alguns egoísta. Para mim? A verdade momentânea. Que os dias me façam mudar de ideia.
Quando retirei algumas fotos da parede percebi que as minhas pessoas são outras. As minhas pessoas mudaram. Mudaram de cabelo, de jeito, de sotaque, de estilo, mudaram de tamanho, de importância. A vida se torna melhor quando a gente muda, assim não cansamos de viver.
Quando me pego pensando no por que dos momentos de tristeza, sempre me recordo que já passei por isso e deveria ter aprendido mais com meus erros do passado. A questão de valores é um sério problemas nessa minha vida perdida entre as prioridades e essa relação confusa com a matemática. Talvez eu seja a lição do sábio, o que aprende com os erros dos outros, não com os próprios.
Quando eu sentir de novo tudo isso aqui que eu venho prorrogando, pode ser que esteja sozinha novamente, debruce pela última vez na janela e veja a visão privilegiada que tive durante alguns anos do nascer do sol. Se estiver acompanhada, posso te chamar para ir comigo.
Quando morei sozinha por três anos, me senti livre por três anos, me senti abandonada por alguns meses e só por tantos outros. Fui feliz por quatro, sem sombra de dúvidas.
Eu já não tenho mais manejo com as palavras como antigamente. Estranho, achei ingenuamente que amadurecendo, o mínimo que fosse, faria com que meus dedos digitassem mais rápido e com mais firmeza o que não podia escapar pela boca. Mais uma vez, engano. Fico sem jeito, a falta de pudor com as palavras perdeu-se entre as teclas. Sumiu.
Quando me propus a escrever sobre a última semana, pretendi exalar amor. Uma pena, esse amor guardo aqui, intacto. Comigo apenas. Por fim, todas as palavras só conseguem apontar para uma: saudade.
Pode parecer bobo daqui 10 anos, Gabriela, mas você vai sentir muita saudade.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Do texto na gaveta


Quando eu ainda tinha 18 anos escrevia assim.

"E com a ânsia de conhecê-lo quis encontrá-lo.
- Eu sou a Gabriela, te vejo aqui nessa lista. Seu nome fica sob o meu, nos mesmos dias em que a angústia aqui se faz por completo. Senti que hoje é o dia de te encontrar, não para nos falarmos, mas para agradecer por caminhar comigo nesse lugar. Porque eu sigo seus passos, sinto seu cheiro e ouço seu respirar. Quer ir comigo? Então me siga nesse caminho sem luz nova, mas com a mesma história pra contar.
E passaram-se os dias, da mesma maneira que viro as páginas dos livros, ao mesmo tempo que aqueles pássaros cantam me avisando que o dia já está aí, e hoje é mais um dia em que sigo comigo e sem mim.
Após o recado escrito não te procurei. Não me faltou vontade, mas coragem. Entretanto, sinto que a sua ânsia por respostas passou. Imaginei o seu nome, curando e tapando o vácuo que por aqui se faz presente. Ainda. Vou te procurar por aqui, ali e acolá, na espreita e com a esperança de roubar de ti a mesma resposta que lhe fez bem por todos esses dias."

Hoje faço 21 e vasculho dentro desse corpo a mesma menina que acreditou que apenas um nome poderia mudar a sua vida.


terça-feira, 26 de julho de 2011

Da falta de crises

Se eu estivesse internada estaria estável. Preciso urgentemente fugir dessa minha rotina desesperada de séries americanas, aquelas que mostram vidas acontecendo e indo embora. Preciso acontecer.
Além disso, sinto falta de criar laços. Perdi a vontade de ter mais pessoas para contar, perdi a sede de querer ser sempre o sorriso mais sincero. Perdi.
Nessa lista de 'precisos', falta o mais importante, cuidar dos meus. Esse meu espírito relaxado esqueceu de atentar para os pedaços jogados das minhas pessoas. Percebo tudo o que está passando, mas já não processo tanto coisa.
Isso tudo pode ser falta de crises, há tempos não crio monstros. Há tempos não sento aqui e despejo lamúrias inflamadas, incompreendidas e necessárias.
Ando triste por não poder estar triste. Aquela máxima de que 'vocês sofrem mais que eu'... ela voltou.
Preciso dessas histórias intensas de séries americanas para lembrar pelo que chorar na minha vida. Para lembrar que eu ainda vou ter muito o que chorar...

Me entenda, Lauryn.